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quinta-feira, 2 de julho de 2026

PARA Águas Profundas

 Meu coração bate pesado ao terminar as últimas páginas de Mar Morto. Jorge Amado me entregou a melancolia de uma noite de tempestade e, ao mesmo tempo, a doçura de um fim de tarde à beira-mar. Banhei-me nos raios de sol que aqueceram meu coração durante essa leitura. Escrevo para compartilhar um compasso desse coração que voltou diferente.

O peito dela rasgou feito papel. As pernas enfraqueceram, como se jamais fossem sustentá-la outra vez. Enfim, sentiu a navalha atravessar-lhe o peito, dilacerando tudo o que havia construído. Viu seus sonhos escorrerem por entre os dedos.

Ela compreendeu que o amor a visitara. E também compreendeu que o amor, às vezes, sabe partir.

Seria mais fácil voltar à terra seca, abandonar as tolices dos poetas do mar e convencer-se de que amar nunca vale a pena.

Mas ela escolheu mergulhar.

Mergulhou nas águas profundas daquele mar tão sereno à distância e tão assustador para quem se atreve a conhecê-lo. Desceu até o fundo dos sonhos que havia criado, porque sabia que, se retornasse cedo demais à terra firme, talvez perdesse a lembrança do amor mais bonito que já vivera.

Então decidiu transformar a dor em milagre.

Reuniu o que ainda restava de si e seguiu pelo caminho de sal que lhe havia sido traçado.

É curioso como os amores chegam como tempestades e partem com o recuo da maré. O coração pesa tanto que até uma pétala de rosa pode ferir como uma navalha. É nesse instante que entendemos: amar é inevitável. O incontrolável nos encontra, nos atravessa e nos transforma. Talvez seja por isso que os poetas escrevam tanto sobre a dor. Eles apenas dão voz às tempestades que um dia também enfrentaram.

E o que fazer quando o futuro escurece e a mão que nos guiava já não está mais ali?

Ela poderia ter se encolhido até virar um grão de areia, invisível entre tantos outros. Mas preferiu tornar-se rainha das águas. Seguiu adiante segurando o próprio coração, ainda ferido, sem permitir que a dor conduzisse seus passos.

Mesmo diante da ausência, do silêncio e da saudade, escolheu continuar caminhando. Fez do destino, antes cruel, um caminho de resistência. Descobriu que mergulhar nas águas profundas não era morrer para a dor, mas nascer para si mesma.

E não somos todos um pouco como ela?

Também atravessamos mares que ninguém vê. Também carregamos cicatrizes escondidas sob a pele e seguimos caminhando, mesmo quando tudo em nós pede descanso.

Que ela nos guie pelo mar.

Que nos ensine que o amor pode partir, mas nunca leva consigo tudo o que somos.

Que nos faça compreender que as maiores travessias acontecem dentro de nós.

Porque o milagre nunca esteve por vir.

O milagre sempre fomos nós: a coragem de continuar navegando quando tudo em nós já queria afundar.

2 PARA comentar:

Rafael disse...

Incrível

Anônimo disse...

Que leitura intensa. Parabéns pelo nível de abstração que trouxe na sua escrita. É muito linda a sua percepção sobre as coisas. Me encanto com cada escrita!

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